
A primeira fonte de pressão sobre o pré-sal são os Estados Unidos, com 29 bilhões de barris de reservas e consumo anual de 10 bilhões. A segunda fonte é o cartel das Sete Irmãs, que já teve controle de 90% das reservas mundiais e hoje tem em torno de 3 a 6% dessas reservas. E nessa condição estão fadadas a desaparecer. Quem dominou o setor durante 150 anos, com todo tipo de atitude, como subornar, destituir ou assassinar presidentes que nacionalizaram o petróleo, como Jayme Roldós do Equador, que foi assassinado, Enrico Mattei da Itália, que foi assassinado, Mohamad Mossadeg do Irã, que foi deposto. Foram assassinados oito poetas da Nigéria porque eles gritavam ao mundo que a Shell estava destruindo as terras agricultáveis do povo Ogoni e agora a Shell está sendo processada, 20 anos depois. A Exxon está sendo processada por causa do derrame no Alasca. Enfim, essas empresas dominaram o setor com mão de ferro e não vão vender barato a sua derrota, sua extinção. A primeira providência da Exxon foi se fundir para sobreviver. A Exxon e a Mobil se fundiram e criaram a ExxonMobil, a maior empresa de petróleo do mundo e não tem reservas. Mas tem um faturamento brutal, o maior faturamento do mundo. A Chevron se fundiu com a Texaco e com a Gulf (todas americanas). A British Petroleum da Inglaterra se fundiu com a Amoco dos Estados Unidos. Essas empresas estão se fundindo para não desaparecer.
Mas só a fusão não é suficiente. É preciso ter reservas. Então, elas querem o pré-sal, até porque três delas são americanas e uma é anglo-saxônica. A Total, européia, se fundiu com a Fina. Uma francesa com uma belga. E a Totalfina com outra francesa, a Elf. Essas empresas formam o novo cartel denominado “BIG OIL” e se fundem para sobreviver. Estão atuando fortemente nos três Poderes brasileiros. Nós tivemos esse ano, quatro audiências publicas no Senado. Cada audiência publica com cinco meses de exposição, debate; cada mesa com dois lobistas de peso. No dia 3 de junho, foi feita a primeira na Câmara. Coincidentemente, os lobistas defensores da atual legislação são os mesmos. É o presidente do IBP, João Carlos de Luca, que também é presidente da Repsol, que é uma empresa espanhola comprada pelo Royal Bank of Scotland, que também é dono do Santander, que comprou o Banespa numa condição absolutamente indefensável. Enfim, a Repsol é uma empresa anglo-saxônica, braço das Sete Irmãs.
Comprou a YPF da Argentina e ENI da Itália. Ela está na Argentina, na Colômbia, na Bolívia, no México, enfim essas empresas estão fazendo todo o possível para que não mude o marco regulatório brasileiro, para que elas mantenham as vantagens nele contidas. Em contrapartida, “as novas irmãs” são oito estatais que detêm 65% das reservas: Saudi Aramco, Gazprom (Rússia), Inoc (Irã), Petronas (Malásia), PDVSA (Venezuela), Pemex (México), Petrochina e Petrobrás. Além dessas, tem a Nigeriana NNPC e a NIOC do Iraque. Estão nas mãos das empresas estatais cerca de 80% das reservas, com tendência a aumentar essa posse porque as empresas e os governos se deram conta do alto valor estratégico que o petróleo representa. As chances das irmãs privadas conseguirem novas reservas são muito complicadas. O pré-sal é uma das alternativas que está mais à mão delas, se nós brasileiros não reagirmos, claro.
FUSÕES DAS SETE IRMÃS PARA SOBREVIVER (3% das reservas)
Repsol (Espanha) - YPF (Argentina)
Eni SpA. (Itália) - Repsol YPF (Espanha)
Total (França) - Fina (Bélgica)
Totalfina (França) - Elf (França)
Exxon (EUA) - Mobil (EUA)
BP (Grã-Bretanha) - Amoco (EUA)
BP Amoco (Grã-Bretanha) - Arco (EUA)
AS NOVAS “IRMÃS”, ESTATAIS, QUE DETÊM 65% DAS RESERVAS
SAUDI ARAMCO – Arábia Saudita
GAZPROM – Russia (renacionalizada)
INOC – Irã
PETRONAS – Malásia
PDVSA – Venezuela
PEMEX – México
PETROCHINA – China
PETROBRÁS
Os choques do Petróleo
Tivemos o primeiro choque de petróleo, em dezembro de 1973, quando os EUA apoiaram Israel contra os árabes. A Arábia Saudita fez um embargo e o petróleo pulou de US$ 1,80 por barril para US$ 11,60. Isso causou um impacto muito forte nas economias dos países importadores, inclusive o Brasil. Esse choque foi superado e em 1979 teve o segundo choque, quando o aiatolá Khomeini assumiu o poder no Irã derrubando o xá Reza Pahalevi, que fazia o jogo dos EUA, como faz hoje o rei da Arábia Saudita. Essa, aliás, é uma preocupação dos EUA: a Arábia Saudita tem a maior reserva do mundo, mas se houver uma rebelião, como houve no Irã em 79, os EUA perdem o controle desse petróleo. Esse segundo choque foi bem forte e o petróleo bateu o recorde de US$ 87 por barril (usando o dólar corrigido). Esses dois choques foram superados e depois a Inglaterra e os EUA, querendo enfraquecer a Rússia, fizeram um acordo com a Arábia Saudita, para que esta inundasse o mercado com mais 2 milhões de barris por dia, derrubando o petróleo para US$ 10 por barril. E aí a Rússia quebrou. Era esse o objetivo. Posteriormente, o Putin renacionalizou a Gazprom e reativou a indústria de petróleo. A Rússia não só saiu do buraco, como hoje tem a Europa sob controle, dependente que é do fornecimento de gás e óleo da Rússia.
Agora nós estamos caminhando para o terceiro e definitivo choque mundial. Infelizmente irreversível porque é uma questão de oferta. Há uma crescente demanda
por petróleo e uma tendência a se atingir o pico da oferta. A China tem um alto crescimento econômico e uma demanda fortíssima por petróleo. Já é o segundo maior
consumidor mundial, atrás dos Estados Unidos. Sua oferta está se estabilizando e depois vai cair. A Índia está da mesma maneira, com a demanda crescendo forte e a oferta se estabilizando.
Outro ponto preocupante é que as grandes descobertas já ocorreram até o ano 2000, mais ou menos. A partir daí as perspectivas de novas descobertas se tornaram muito pequenas. O pré-sal tem uma perspectiva sensacional, mas, mesmo assim, representa apenas 9% das reservas mundiais. Então, não chega a ajudar muito. E aí nós chegamos ao ponto crucial da questão. A produção americana que atingiu um pico na década de 70. A Europa, na década de 2000. A Rússia foi nos anos 90, os demais países estão para atingir no entorno de 2010, o oriente médio também em torno de 2010.
Somando-se todas as produções mundiais, conclui-se que atingiremos o pico de produção mundial em torno de 2010, o pico de oferta de petróleo, e aí, lamentavelmente, após este período, ocorrerá uma queda muito forte, muito acentuada, enquanto que a demanda, que hoje já está empatando em 87 milhões de barris por dia, tende a crescer. Estamos caminhando para uma crise e acho que parte desta crise internacional foi para dar uma aliviada na economia dos EUA.
PETRÓLEO/GÁS E POLÍTICA INTERNACIONAL NO SÉCULO XXI
PRIMEIRA CRISE DO PETRÓLEO
16/10/73: aumento de preços pela OPEP para US$ 5,11/barril
17/10: embargo parcial contra os EUA;
Arábia Saudita: adere ao embargo devido à aliança EUA/Israel;
Irã e Iraque aumentaram a produção;
Preços (US$/barril): 1970 - 1,80; 1973 (dezembro) - 11,6;
1974: 1974: fundação da Agência Internacional de Energia (OCDE);
Crise em países industrializados: PIB dos EUA caiu 6% entre 1973 e 1975;
PETRÓLEO/GÁS E POLÍTICA INTERNACIONAL NO SÉCULO XXI
O SEGUNDO CHOQUE DO PETRÓLEO
Fevereiro de 1979: Revolução Iraniana;
Dez 1978 a Out 1979: OPEP ampliou a produção, mas ainda restou um
déficit de 2mm bpd;
Déficit ampliado pela desorganização/pânico do mercado; o preço do
barril bate recorde: U$ 87 em dólares corrigidos para 2005
(Banco Barclays)
Possibilidade de alastramento da Revolução Iraniana
Razões para a Crise Mundial
Eu tenho pelo menos cinco razões para essa crise. A primeira delas é que o dólar passou a ser emitido em 1971 sem o lastro-ouro, que foi acertado em 1945. Os Estados Unidos pintam o papel e saem comprando produtos dos outros países. É uma assimetria de poder enorme. Sem esforço nenhum, emitem moedas e compram bens de outros países que não têm essa facilidade. A China e os Brics em geral estavam fazendo um movimento internacional para mudar essa moeda de referência e nessa condição o dólar foi despencando. A crise fez com que os especuladores, os investidores, corressem para títulos teoricamente mais seguros, os títulos do Tesouro americano, e o dólar ressuscitou.
O segundo ponto é que estávamos caminhando para o terceiro e definitivo choque do petróleo, com as perspectiva da subida do barril para US$ 180 até 2015. Como os Estados Unidos importam 5 bilhões de barris por ano, a US$ 140 dólares por barril estavam gastando US$ 700 bilhões só com petróleo. Caso o petróleo chegasse a US$ 180 dólares dá para perceber que eles gastariam quase US$ 1 trilhão só com importação de petróleo. A crise também ajudou a derrubar o petróleo para US$ 40. O terceiro ponto é dificultar a China, que já estava sombreando os Estados Unidos; o quarto ponto é a preocupação dos investidores internacionais em 2008, em Davos, com os fundos soberanos dos países detentores de petróleo. Esses fundos soberanos estavam com um caixa financeiro bastante alto, já sombreando o sistema financeiro internacional e dificultando a especulação, porque quem monopoliza o mercado, especula e usa o sistema a seu favor. Quando se tem um conjunto de fundos da mesma ordem financeira que não fazem esta especulação, eles atrapalham. A crise fez com que a principal fonte geradora dos fundos soberanos da Noruega, ABU Dhabi Venezuela, Arábia Saudita, Kuwait, entre outros, fosse um pouco esvaziada e também esvaziou um pouco os poderes de rebeldia do Irã e da Venezuela.
Por último, eu acho que um dos pontos da crise criou um ceticismo na sociedade brasileira, porque muitos brasileiros começaram a se perguntar: será que a 40 dólares o pré-sal seria viável? Em todos os debates que eu tenho participado há esta pergunta.
Assim, os lobistas ficaram à vontade para defender a manutenção da atual legislação.
Boa para eles.
Para confirmar que a tendência é de alta, que nós estamos próximo do pico da produção de petróleo, o George Soros comprou ações da Petrobrás que o Fernando Henrique vendeu na Bolsa de Nova York e se transformou no segundo maior acionista da Petrobrás. Segundo analistas, a compra foi feita num bom momento, porque o preço do petróleo deve subir com força nos próximos anos. Esta é a expectativa dos especialistas, porque nós estamos atingindo o pico de oferta e a oferta já é menor do que a demanda. Esta defasagem, inevitavelmente, irá gerar a elevação dos preços. Os
países desenvolvidos, que não têm reservas, estão literalmente, como diriam os nordestinos, lascados.
Fernando Siqueira - Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras - AEPET
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