segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A propósito de vazamentos políticos


Emerson Pires Leal*

No finalzinho de 2009 o JPMorgan Chase – um dos principais bancos norte-americanos –
deu um aviso „aos navegantes‟: “nosso candidato no Brasil é José Serra”. Disse mais: „Dilma
Rousseff é uma candidata muito competitiva; [o problema é que] ela poderia elevar o grau de
intervenção do Estado no setor privado (então, não serve para ‘nós’)‟.
O PSDB – bem o sabemos – é o principal partido que representa os interesses das grandes
corporações multinacionais no Brasil. Por outro lado, o Estado, na concepção das elites dominantes,
deve servir apenas para atender aos interesses dessas elites. Neste sentido, os lucros devem ser
privatizados e os prejuízos, como sempre, socializados. Foi assim, por exemplo, na crise de 2008
que fez tremer as bases da economia das grandes potências com reflexos nas do resto do mundo. O
Estado – isto é, o povo – teve de investir bilhões para salvar bancos e outras grandes corporações.
Para eles, chegou a hora de jogar fora o bagaço da laranja (tradução: é preciso eleger Serra ou
qualquer outro candidato das elites dominantes. O resto, é resto).
Em resumo: as peças do xadrez das eleições de 2010 já estão em movimento há algum
tempo – como não poderia deixar de ser. Agora mesmo estamos assistindo a mais um movimento
no tabuleiro relacionado com o decreto que o presidente Lula assinou criando a Comissão Nacional
da Verdade, prevista no 3º Plano Nacional de Direitos Humanos. A idéia é resgatar um direito
fundamental que o ex-ministro Nilmário Miranda definiu com muita precisão.
“Na democracia – disse ele –, o poder militar tem de se submeter ao poder civil. O direito à
informação e aos corpos dos desaparecidos políticos é universal e não poderá ser exercido sem
desagradar a parte dos militares que participou da repressão”. Só que os militares não pensam
assim. O episódio da criação da Comissão para apurar crimes e violações dos direitos humanos no
período entre 64 e 85 está sendo utilizado pela oposição para tentar debilitar o governo federal e,
por tabela, a candidata Dilma Rousseff.
Em síntese, o conluio entre a mídia e representantes das Forças Armadas que ocorreu após
Lula ter decidido avançar no projeto que discute a hipótese da abertura de arquivos da ditadura,
residiu no seguinte: a Folha de S. Paulo publicou as conclusões de um relatório técnico da Força
Aérea Brasileira (FAB) revelando para o público a preferência da „caserna‟ pelo avião sueco
Gripen. O vazamento desta informação teve o objetivo de deixar o presidente Lula numa saia justa.
A esperança, é que o pequeno recuo que o Presidente teve de assumir na elaboração do
decreto que criou aquela Comissão não venha a significar um prejuízo muito grande quando o
projeto for discutido no Congresso Nacional. Para isso, é preciso que a sociedade se mobilize para
dar respaldo às bancadas do Congresso sintonizadas com os interesses do nosso povo.

*Emerson Leal – Doutor em Física Atômica e
Molecular e vice-prefeito de S. Carlos
e-mail: emersonpleal@gmail.com

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