domingo, 10 de janeiro de 2010

Estratégias de Defesa do Departamento de Defesa dos EUA


Das cinco estratégias do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, três nos afetam diretamente, destinadas praticamente ao Brasil. Proteger a soberania é normal para todo país. Agora, evitar que países potencialmente hegemônicos se desenvolvam

“e coalizões regionais hostis”. Coalizões regionais hostis é o Mercosul e dos países potencialmente hegemônicos, o Brasil é o maior deles. São os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), considerados por economistas como o bloco mais viável do planeta e tem o Brasil como um dos ícones, um dos principais capazes de se desenvolver rapidamente. Com o pré-sal ele disparou em relação aos demais. Então, assim que o Brasil se desenvolve, ele não mais exporta seus produtos naturais, não renováveis, na forma de matéria prima.

Vai exportá-los na forma de produto acabado. O Brasil exporta, hoje, cada tonelada de produto básico por U$ 50. Se ele agregar o valor tecnológico a esses produtos que ele exporta, transformando-os em DVD, TV digital, telefone celular, entre outros, ele exporta essa tonelada por U$ 50 mil e não mais por US$ 50. E deixa de ser um fornecedor de matéria prima para os países desenvolvidos. Isso aí é uma forma de evitar que o Brasil se transforme num concorrente indesejável. Porque se ele agrega tecnologia e exporta produtos, na forma agregada de tecnologia, ele passa a ser um concorrente fortíssimo.

Daí a tentativa de frear o desenvolvimento brasileiro. É uma estratégia de defesa dos Estados Unidos. E não foi à toa que se privatizou empresas estatais, por quê? Porque nos países em desenvolvimento quem desenvolve a tecnologia são as estatais, universidades e institutos militares. Todos estão profundamente esvaziados, com falta de recursos aos institutos militares e universidades. O CPqD em Campinas estava desenvolvendo a TV digital, o capacitor ótico. Na TV digital tinha uma equipe de 25 pesquisadores. Com a privatização da Telebrás, 24 foram embora e o remanescente se suicidou e o Brasil teve que comprar a TV digital lá fora. Então, a privatização foi uma desnacionalização que visou inibir o potencial gerador de tecnologia. Nós tínhamos 5 mil empresas nacionais fornecedoras de equipamentos na área tecnológica, que eu ajudei a fundar transferindo tecnologia repassada pela Petrobrás. Eu e uma equipe da Petrobrás fizemos capacitação das empresas. Toda tecnologia pesquisada, desenvolvida ou adquirida era repassada ao mercado nacional e desenvolvemos 5 mil fornecedores de equipamentos de petróleo.

O desenvolvimento de componentes diversos, inclusive eletrônicos, não apenas para petróleo, mas que se aplicavam para vários segmentos da indústria. Tivemos empresas nacionais de eletrônica, a Det Tronics e a Sistema, trocando tecnologia com os gigantes internacionais. De repente, o decreto 3161/99, o Repetro, isentou as empresas estrangeiras de impostos de importação, mas não deu a contrapartida para as nacionais, e liquidou as nossas 5 mil empresas. Até o ponto em que viraram escritório de representação dos seus antigos concorrentes. A Sistema fechou. Foi um crime grave para a tecnologia nacional. Então hoje a gente luta para que as empresas nacionais tenham, no mínimo, vantagens iguais às empresas estrangeiras, para que elas possam se viabilizar.

A gente tem essa tecnologia latente na mente das pessoas. Se houver incentivo, essas empresas se refazem. O PROMINP, programa de capacitação Petrobrás/indústria, está prevendo que o pré-sal vai gerar 250.000 empregos diretos e 700.000 indiretos, uns 100.000 engenheiros, mais ou menos. É preciso investir no desenvolvimento, nas empresas nacionais, em fornecedores nacionais, prestadores de serviços nacionais, para que o pré-sal tenha esse volume de emprego gerado aqui dentro.

Os EUA têm também como estratégia de defesa acesso às fontes de energia. Com o consumo que têm e as reservas que têm, eles precisam desesperadamente dessa energia.

Quando se fez uma tentativa de revisão da Constituição em 1994, o relator dessa revisão era o então deputado Nelson Jobim. Ele propôs a redução do mar territorial de 200 milhas para 6 milhas. Aí, o senador Antonio Mariz, da Paraíba, protestou veementemente e ele retirou a proposta. Hoje, Jobim é nosso ministro da Defesa, o que é preocupante. Quem propõe o fim das 200 milhas, quando já tinha plataforma de petróleo, e hoje é ministro da Defesa nos deixa bastante apreensivo.

“Os interesses vitais dos EUA, em torno dos quais se organiza toda a atividade do Department of Defense, compreendem:

• Proteger a soberania, o território e a população dos Estados Unidos;

• Evitar que países potencialmente hegemônicos se desenvolvam, e coalizões regionais hostis;

• Assegurar o acesso incondicional aos mercados decisivos, ao fornecimento de energia e aos recursos estratégicos;

• Dissuadir e, se necessário, derrotar qualquer agressão contra os Estados Unidos ou seus aliados;

• Garantir a liberdade dos mares, vias de tráfego aéreo e espacial e a segurança das linhas vitais de comunicação.”

Fonte: Ceceña, Ana Esther, artigo “Estratégias de Dominação e Mapas de Construção de Hegemonia

Mundial”, II FSM, em jan./2002.


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