Das cinco estratégias do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, três nos afetam diretamente, destinadas praticamente ao Brasil. Proteger a soberania é normal para todo país. Agora, evitar que países potencialmente hegemônicos se desenvolvam
“e coalizões regionais hostis”. Coalizões regionais hostis é o Mercosul e dos países potencialmente hegemônicos, o Brasil é o maior deles. São os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), considerados por economistas como o bloco mais viável do planeta e tem o Brasil como um dos ícones, um dos principais capazes de se desenvolver rapidamente. Com o pré-sal ele disparou em relação aos demais. Então, assim que o Brasil se desenvolve, ele não mais exporta seus produtos naturais, não renováveis, na forma de matéria prima.
Vai exportá-los na forma de produto acabado. O Brasil exporta, hoje, cada tonelada de produto básico por U$ 50. Se ele agregar o valor tecnológico a esses produtos que ele exporta, transformando-os em DVD, TV digital, telefone celular, entre outros, ele exporta essa tonelada por U$ 50 mil e não mais por US$ 50. E deixa de ser um fornecedor de matéria prima para os países desenvolvidos. Isso aí é uma forma de evitar que o Brasil se transforme num concorrente indesejável. Porque se ele agrega tecnologia e exporta produtos, na forma agregada de tecnologia, ele passa a ser um concorrente fortíssimo.
Daí a tentativa de frear o desenvolvimento brasileiro. É uma estratégia de defesa dos Estados Unidos. E não foi à toa que se privatizou empresas estatais, por quê? Porque nos países em desenvolvimento quem desenvolve a tecnologia são as estatais, universidades e institutos militares. Todos estão profundamente esvaziados, com falta de recursos aos institutos militares e universidades. O CPqD em Campinas estava desenvolvendo a TV digital, o capacitor ótico. Na TV digital tinha uma equipe de 25 pesquisadores. Com a privatização da Telebrás, 24 foram embora e o remanescente se suicidou e o Brasil teve que comprar a TV digital lá fora. Então, a privatização foi uma desnacionalização que visou inibir o potencial gerador de tecnologia. Nós tínhamos 5 mil empresas nacionais fornecedoras de equipamentos na área tecnológica, que eu ajudei a fundar transferindo tecnologia repassada pela Petrobrás. Eu e uma equipe da Petrobrás fizemos capacitação das empresas. Toda tecnologia pesquisada, desenvolvida ou adquirida era repassada ao mercado nacional e desenvolvemos 5 mil fornecedores de equipamentos de petróleo.
O desenvolvimento de componentes diversos, inclusive eletrônicos, não apenas para petróleo, mas que se aplicavam para vários segmentos da indústria. Tivemos empresas nacionais de eletrônica, a Det Tronics e a Sistema, trocando tecnologia com os gigantes internacionais. De repente, o decreto 3161/99, o Repetro, isentou as empresas estrangeiras de impostos de importação, mas não deu a contrapartida para as nacionais, e liquidou as nossas 5 mil empresas. Até o ponto em que viraram escritório de representação dos seus antigos concorrentes. A Sistema fechou. Foi um crime grave para a tecnologia nacional. Então hoje a gente luta para que as empresas nacionais tenham, no mínimo, vantagens iguais às empresas estrangeiras, para que elas possam se viabilizar.
A gente tem essa tecnologia latente na mente das pessoas. Se houver incentivo, essas empresas se refazem. O PROMINP, programa de capacitação Petrobrás/indústria, está prevendo que o pré-sal vai gerar 250.000 empregos diretos e 700.000 indiretos, uns 100.000 engenheiros, mais ou menos. É preciso investir no desenvolvimento, nas empresas nacionais, em fornecedores nacionais, prestadores de serviços nacionais, para que o pré-sal tenha esse volume de emprego gerado aqui dentro.
Os EUA têm também como estratégia de defesa acesso às fontes de energia. Com o consumo que têm e as reservas que têm, eles precisam desesperadamente dessa energia.
Quando se fez uma tentativa de revisão da Constituição em 1994, o relator dessa revisão era o então deputado Nelson Jobim. Ele propôs a redução do mar territorial de 200 milhas para 6 milhas. Aí, o senador Antonio Mariz, da Paraíba, protestou veementemente e ele retirou a proposta. Hoje, Jobim é nosso ministro da Defesa, o que é preocupante. Quem propõe o fim das 200 milhas, quando já tinha plataforma de petróleo, e hoje é ministro da Defesa nos deixa bastante apreensivo.
“Os interesses vitais dos EUA, em torno dos quais se organiza toda a atividade do Department of Defense, compreendem:
• Proteger a soberania, o território e a população dos Estados Unidos;
• Evitar que países potencialmente hegemônicos se desenvolvam, e coalizões regionais hostis;
• Assegurar o acesso incondicional aos mercados decisivos, ao fornecimento de energia e aos recursos estratégicos;
• Dissuadir e, se necessário, derrotar qualquer agressão contra os Estados Unidos ou seus aliados;
• Garantir a liberdade dos mares, vias de tráfego aéreo e espacial e a segurança das linhas vitais de comunicação.”
Fonte: Ceceña, Ana Esther, artigo “Estratégias de Dominação e Mapas de Construção de Hegemonia
Mundial”, II FSM, em jan./2002.
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